segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O mais perfeito de todos os casamentos – O infinito e a vida; a realidade e o sentir.





Já faz algum tempo que to precisando fazer isso, sentar aqui e escrever tudo aquilo que meu coração está pedindo, tudo aquilo que vem mudando em mim. Faço isso em milhares de noites, mas eu preciso, eu necessito compulsivamente de folhas em branco, eu preciso dizer, eu preciso ver, eu preciso dos rascunhos desse reflexo tão nítido e confuso. Narciso não era apaixonado por si – Ele amava apenas o seu reflexo. 
Vejo-me nitidamente nesses caracteres, mas ao olhar no espelho todas as manhãs, vejo uma imagem totalmente distorcida, borrões que não posso apagar como nas folhas em branco.

Meu Deus, o que eu sou? Em qual desses reflexos e imagem eu realmente estou?
Eu preciso, eu preciso, eu preciso. Só sei que preciso.



Fecho os olhos e...

Vento forte, gelado. Uma noite realmente fria. Daqui da janela vejo os galhos dançando, fazendo amor com o vento numa sintonia perfeita de curvas e contra curvas. As folhas se rendem, se perdem nesse marasmo desviando-se precisamente uma das outras como quem com muita delicadeza e timidez se desvia de um beijo. Uivos e barulhos de uma natureza noturna que parece tocar harpas imaginárias e servir de testemunhas para o mais perfeito de todos os casamentos – O infinito e a vida; a realidade e o sentir.
Sinto pena dos ignorantes que passam na rua lá fora. Sinto pena por verem beijos apenas entre lábios, curvas somente entre corpos e canções somente por algum outro meio. Pauso a escrita, tomo um gole de café já frio e fico pensando nesse mundo cheio de perfeições a olhos nus e me arrepio de medo pelas pessoas e o futuro que teima em se apresentar de forma tão vazia, tão sem cor. Tão sem vida, tão sem valor.
Levanto-me, pego a xícara e vou para cozinha.
Na mesa pessoas jantando e conversando sobre suas vidas e realidades tão banais.

- Raíssa meu amor, não se aproveitando da sua bondade, poderia encostar a porta? Estou congelando de frio.
- Posso. Mas você viu isso?
- Isso o quê?
- Hum... nada. O céu esta vermelho, e ta cheio de folhas lá fora.
- Vem jantar antes que esfrie.
- Agora não posso, preciso escrever umas coisas. Só vim pegar alguma coisa para beber e procurar meu isqueiro.

Enquanto mordo um pedaço de chocolate e abro a geladeira, fico analisando detalhadamente cada um deles. Se divertem com tão pouco, gargalhadas camufladas com diálogos estupidamente desnecessários. Tragadas e goles de bebidas tão secos quanto à vida deles. Não, não é possível que eles sejam felizes com tão pouco, eu me nego a acreditar nisso. Vejo detalhes e me esforço para desvendá-los e dar alguma razão existencial a eles, mas quando separo tudo, vejo que estou sozinha. Ninguém se arrisca a ver.
Eles me olham com aquele olhar distante como se tivessem pena de mim, enquanto eu é quem tenho pena de toda futilidade vivida por eles.
Deus eu preciso de respostas.
Porque eles não podem ver tudo o que vejo? Onde é meu lugar?
Socorro! Eu quero sair desse mundo repleto de dementes!

Pobres humanos... completamente cegados pelo mundo.
Porque viver em um mundo real aonde suas mentiras são suas paredes e alicerces?
Ah Deus, obrigada por me dar sã consciência de muitas coisas, como saber ver a beleza lá fora. Perdoe aqueles inúteis, pervertidos e hipócritas sentados naquela mesa – Eles não sabem o que falam, eles apenas estão cegados pelo mundo. Mas de forma alguma eu peço desculpas por achar eles completamente estúpidos ou por desejar a sentença do Apocalipse e me livrar deles de vez.
Não me deixe fazer dos sonhos e das fantasias algumas vezes tão necessários em nossas vidas, escudos da covardia e da mentira. Permita-me apagar e recuperar alguns rascunhos e reencontrar o que se perdeu sem precisar de máscaras ou personagens a ponto de enganar a mim mesma.
21 anos apenas, e muitas folhas em branco ainda tenho para escrever. A verdade é uma excelente caneta, mas eu ainda posso - como todo jovem necessita e quer - ir muito além, sem limites e sem fim.

"E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." 
Friedrich Nietzsche

3 comentários:

  1. Menina, eu tava entrando na essencia do seu texto, daí, paro e leio "isqueiro", imaginei, ela fuma? Ela estava apenas acendendo um incenso?
    Bem, se for a fumaça de um incenso eu diria .."a fumacinha que esvai desse incenso, eu me vejo cego perdido em um nevoeiro sem fim...."

    abçs

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  2. Eu estou realmente começando a concordar com o que muitos dizem, sobre a ignorância ser uma bênção. Acho que viveríamos muito mais intensamente se não fôssemos tão sensíveis a tudo o que nos cerca. Você agradeceu a Deus por isso. Eu já acho um fardo.

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  3. Deixei um selo pra vc pegar lá no blog. Passa lá, não vai esquecer.

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