O calor somado ao vinho o deixava zonzo e ele não sabia ao certo o que dizer ou o que fazer. Não queria mentiras naquilo que parecia descaradamente real e verdadeiro, um relacionamento que não existia por mais que houvesse relação. Ela o olhava com um ar divertido - notava sua excitação e ele a sua angústia. Uma mulher sempre sabe quando outra fez algo em um homem, e sempre sabe quando é o homem quem perdeu por mera vaidade. Ela falava de lugares que ele nunca tinha visto, e seu sotaque o deixava confuso. Ele não tinha muita noção de onde estava, e poderia ser alvo de qualquer mal gosto alheio. Mas, por incrível que pareça, ela passava a sensação de segurança que ele não sentia quando ia dormir. Ela parecia materna, fraterna e cobiçável
. Retentora de segredos e práticas que a maioria das mulheres levaria uma vida sem conhecer, ela sabia bem quem era quem e qual era homem, menino e solitário. Ela inspirava contos, músicas e poesias, e na sua vaidade isso pouco importava.
. Retentora de segredos e práticas que a maioria das mulheres levaria uma vida sem conhecer, ela sabia bem quem era quem e qual era homem, menino e solitário. Ela inspirava contos, músicas e poesias, e na sua vaidade isso pouco importava.
- Vocês meninos...
- Eu não sou um menino.
- Ah! Mon amour, eu sinto o cheiro de meninos e homens. E sei muito bem quando meninos crescem e querem se livrar da estigma do amor mal vivido. Eles procuram em mulheres o que suas garotas lhe tiraram, e não pense em dizer que estou errada. Diga-me, ela tinha pele macia e olhos que lhe tragavam? Ela sabia de suas mentiras e de suas verdades e mesmo assim agia com lealdade e servidão? Ela lhe arrancava suspiros e lhe trazia o ódio em uma bandeja com apenas duas palavras? Diga-me, meu amor, que ela lhe tirou os vícios e você a seguiu até que se cansou da segurança que a vida a dois tem e procurou novamente a alegria e distorção que as noites quentes lhe traziam. Venha, deite-se em meu colo e conte-me, enquanto lhe preparo.
Ela o despia a alma como ele despia o pudor sempre que podia. Ela olhava e o consumia em uma chama que ele não podia entender. Ela sabia dos seus artefatos e compreendia o vacilar de cada passo e se divertia quando ele voltava o olhar para a parede toda vez que ela insinuava seu belo e farto corpo. Ela era sua paixão e seus pecados, e se alegrava em ver essas coisas por que ele ainda os tinha e os ostentava com orgulho ferido.
- Amélie, você não me lembra em nada uma jovem criada. Você me parece matrona de almas perdidas que buscam afeto e engrandecimento em noites em que a solidão dá cria a demônios. Diga-me, por que escolheu esse nome dentre tantos outros que lhe caberiam melhor?
- C'est ma vie, mon amour. Eu sou o que precisam, e dentro da necessidade do outro me acho e me perco por que assim me parece ser bom. Na minha vaidade de mulher descobri o amor e a indiferença que nasce do mesmo. Aprendi a tocar suavemente as feridas que quando vistas doem como sóis, e aprendi a rebeldia da servidão. Eu sou un amour libre, que da vaidade foi feito prisonnier.
Ele não entendia essas coisas. Ele não via e não recebia o que era dado por que a dor o consumia onde ele permitia montar sofrimento. Olhava para Amélie perplexo.
Usava um espartilho e o cabelo preso em um coque no alto da cabeça. Ruiva natural, seios fartos e pernas bem torneadas. Mãos suaves e unhas bem pintadas de vermelho. Brincos pendiam de suas orelhas pequenas, que faziam um belíssimo contraste na pele branca. Seu rosto fino era bem desenhado, e os lábios carnudos além de quebrar a fragilidade do rosto eram cheios de malícia e ironia. Uma pequena tatuagem no seio esquerdo podia ser vista, porém não compreendida. Olhos claros de ressaca e noites mal dormidas, que o despiam por debaixo da roupa. Minutos em silêncio que parecem dias, e ela acende um cigarro desejoso de sexo e confissões tolas. Vampiros existiam naquele quarto e ele bem sabia que não passava de um pequeno cordeiro frente àquela mulher que o devorava. Tudo ali – da cocaína à música - contribuía para que ela o dominasse e ele, mesmo que pudesse, não lutaria contra isso.
Essa prostituta Parisiense despertou algo em mim – Pensa ele no seu íntimo, que nem era mais tão íntimo assim.
Misto de devoção e amor, desprezo e ódio. Ele a queria por completo - sabendo que era possuído e nunca possuidor.
- Je t'aime, Amélie - Diz ele completamente alucinado.
- Je sais mon cher, je sais (Eu sei meu querido, eu sei.) Agora venha, temos que nos amar e esquecer o que é o amor.
De luzes apagadas, ele não viu as vastas marcas de dor que deixava nela; De olhos fechados, ela não viu as marcas de Amor que deixava nele. E em seu ouvido ele sussura bem baixinho: Je t'aime, Amélie. Je t'aime...

Algum dia eu quero também apaixonar-me por uma protituta parisiense. Agora devo saber de que livro ou filme é essa cativante narrativa.
ResponderExcluirA imagem é do filme Closer, mas não tem nada a ver com meu texto não Duh.
ResponderExcluirRaíssa, parabens por conseguir passar para o papel de forma tão poética a dualidade existente entre dor e prazer; tristeza e alegria; entrega e distanciamento possiveis e muitas vezes inimaginaveis em algo chamado simplesmente Relação.
ResponderExcluirParabéns por mais este belo e dramático conto,Sisi.
ResponderExcluirMe fez lembrar de alguém,chamada Geenevieve,que marcava
e era marcada;que vivia e que deixava viver...